sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Comentário dos documentos: Mediator Dei, Sacrosanctum Concilium e pós-conciliares


Trabalho apresentado ao curso de Teologia como requisito parcial de aprovação na disciplina Liturgia.

A partir de uma reflexão sobre os documentos, que apresentam a importância da liturgia, é necessário, partir do princípio da Igreja em renovar a ação litúrgica, que havia perdido seu sentido com a Missa Tridentina.
Com a Mediator Dei, o papa Pio XII traz grandes avanços para a liturgia, apesar de estar incoerente com os dias atuais. Nessa encíclica, o Pontífice resgata a importância do ato litúrgico, da Eucaristia nas celebrações (mesmo que fosse restrita somente ao sacerdote), e a participação plena do povo em todos os cultos.
No documento, o Ofício Divino é obrigatório a todos os momentos do dia. E destaca a divisão do ano litúrgico e a festa dos santos, que tem como centro os Mistérios de Cristo.
Pio XII, com um pensamento muito além do seu período, cercado pelo pensamento tridentino, destaca a importância da devoção popular como forma pastoral e o uso dos cantos modernos, não somente os gregorianos que não agradam a todos.
Logo, sob grande influência da Mediator Dei, surge no Concílio Vaticano II, a Constituição Sacrosanctum Concilium. Lembrando que o Concílio não tinha intuito dogmático, apenas pastoral, foi um aggiornamento para a Igreja nos dias atuais. Por isso, que em seu texto, a Sacrosanctum Concilium propõe uma reforma na Liturgia.
Sob a luz da Mediator Dei, a Sacrosanctum Concilium apresenta diferenças em relação ao documento anterior. Ainda resgatando a importância do uso das Sagradas Escrituras e da participação dos fiéis, também afirma que devem comungar em todas as celebrações, deixando assim, de ser apenas o sacerdote.
No Ofício Divino, não é obrigatório, mas propõe sua estima para a comunidade e para os sacerdotes junto com comunidades religiosas; que a música não seja apenas gregoriana ou moderna, mas também litúrgica, adequada ao tempo que se celebra; destaca que a arte deve ser bem feita, como a vida de quem a faz seja exemplar.
Posteriormente, não mais no Concílio Vaticano II, mas sob sua influência e luz, surgem novos documentos:
1.      O Catecismo da Igreja Católica – que não é um manual teológico nem litúrgico, mas apresenta grande valor ao Mistério Pascal, ao mistério cristão e à teologia da celebração. Nele, o cristão, poderá conhecer a Sacrosanctum Concilium com um intento catequético;
2.      O Diretório Geral para a catequese – não tendo como intenção ser um tratado de liturgia, destaca a importância da liturgia para a catequese. Devem estar sempre unidas, pois os catequisandos encontrarão na liturgia a Ação de Deus, o Mistério de Cristo;
Assim, como foi fundamental citar esses documentos, também o será, referir alguns teólogos, que não são liturgos, mas que em suas obras de eclesiologia ressaltam a liturgia:
1.      Yves Congar – Para ele, a liturgia é uma escola de teologia, pois se aprende sobre o Mistério de Cristo, a partir da vivência em comunidade, assim como a Litugia, além do culto, é o local da fé;
2.      Henri-Marie de Lubac – Reflete sobre dois temas: a Igreja é veterotestamentária, pois assim como no Antigo Testamento, ela é a comunidade convocada para a escuta de Deus; e o corpus mysticus;
3.      Hans Urs Von Balthasar – Diz que com a liturgia, retomamos a fonte da Revelação. Cristo que a quer e a determina, não foi uma invenção simplesmente humana;
4.      Jean Marie Roger Tillard – Não faz distinção entre Liturgia e Igreja. As duas são uma só.

As figuras bíblicas do Diabo


GOPEGUI, J. A. R. As figuras bíblicas do diabo e dos demônios em face da cultura moderna, in: Perspectiva Teológica 29 (1997) p.327-352.
MORIN, D. Deus e o problema do mal, in: Para falar de Deus. Loyola, 1993. p.121-147.
QUEVEDO, O.    Afinal, que são os demônios?  in:  Antes que os demônios voltem.  Loyola, 1989. p. 257-299.
SUSIN, L. C. O sofrimento da criação, in: A criação de Deus, 119-150.
WENISH, B. Satanismo - missas negras, crença nos demônios, culto das bruxas. Vozes, 1992.

Trabalho apresentado ao curso de Teologia como requisito parcial de aprovação na disciplina Teologia sistemática (antropologia teológica) .

Durante séculos temos exorcizado o Diabo, colocando-o como responsável pelo Mal no mundo, sendo que nas últimas décadas têm-se aumentado as sessões que o expulsam. Fato que não o tirou da realidade e sim o acolheu cada vez mais no cotidiano das pessoas, fazendo com que ele tivesse seus próprios simpatizantes. Ganhando maior repercussão após a obra “O Exorcista” de William Peter Blatty em 1971.
A Igreja Católica, na sua profissão de fé não diz e nunca disse: “creio em Lúcifer, rodeado de seu séquito de demônios, instalados no mundo para fazerem e provocarem a maldade”. Mesmo na Idade Média quando essa infeliz crença esteve presente e manchando sua Tradição, a Igreja não o colocou como Dogma de fé ou parte da Revelação, mas o admitiu como ser capaz de apossar das pessoas e as incitarem a maldade e perversões diversas.
Ao invés de fazermos exorcismos, procurando tirar demônios de pessoas, é fundamental fazer um olhar pela História e entender de onde surgiu esse mito. Por ser uma figura, que surgiu dos mitos de diversos povos, surge o questionamento: “por que Jesus expulsou demônios?”, uma resposta interessante e muito provocadora é encontrada no mesmo livro de Blatty, onde afirma se Ele não os tivesse expulsado, teria sido crucificado três anos antes.
“Os deuses da antiga religião sempre tornam-se os diabos da nova”, com essas palavras, citadas por Stewart Farrar[1], torna-se compreensível o povo hebreu ter inculturado diversas fábulas as suas crenças, já que viviam num “corredor” de acesso à grandes potências.
Satã, na Bíblia, não significa um ser sobrenatural que faz maldades, e o nome não tem o mesmo significado de demônio, diabos e outros nomes usados para representar o mal. Cada um apresenta seu significado em seu contexto. Alguns exemplos podem ser citados:
·        Diabo = aparece na tradução dos Setenta; no livro de Henoc e Ap 12,7-11;
·        Lúcifer = Is 14,12; Ap 22,16;
·        Belial = Dt 13,14 e 2Cor 6,14-16;
·        Potestades e demônios = 1Cor 6,3; 10,20ss; Ef 6,11s; Ap 11,20;
·        Belzebu = Lc 11,24-26;
Cada um pode ser explicado, sem precisar especular nenhum ser que toma conta de algum corpo ou que fica causando intrigas. A mais notável explicação é a lenda do zoroastrismo sendo Aura-Mazda assimilado com Miguel Arcanjo e Arimã com Lúcifer, os quais possuem um grande exército, esperando o momento final para lutarem entre eles.
Porém, como seres incapazes de assumir um erro, inconscientemente espelhamos a culpa em alguém ou em algo que não pode ser julgado diretamente, para que assim, possamos tirar o peso que nos cabe. Isso Carl Jung define bem quando cria dois arquétipos do inconsciente, à sombra e a máscara. A sombra é reprimida de tal forma que, em situações onde há um forte histórico de repressão, a telergia transborda como “hemorragia” e faz com que a pessoa entre em estados conhecidos como possessões.
Essa repressão, quando não é expressa em forma de doença psíquica ou orgânica, é transformada em revolta, geralmente a Igreja, a Deus ou mesmo porque não tiveram uma assistência que precisavam. Daí surge grupos de revolta, onde Deus é deixado de lado, e Satã, seu adversário é cultuado. Em resposta a isso, a Igreja deve somar forças para acolher aqueles considerados satanistas, e mostrar que a Bíblia e seu Evangelho não são um freio moral, mas apresentam o plano salvífico de Cristo para todos.
Tem-se exorcizado o que não devia. Pois nossas partes integradoras ficam retidas através de repressões, máscaras, negações e da magia. Por isso, o diabo também deve ter sua redenção, já que ele, como sinal de muitas manifestações da nossa sombra, faz parte do nosso ser. Como foi dito que os deuses das outras religiões são os diabos das atuais, devemos perceber os deuses gregos Dionísio, Pã e Afrodite como partes da totalidade humana. Pois, eles não são ruins, mas cada um carrega o que cada ser precisa para se tornar uma pessoa completa.
Orígenes, Padre da Igreja, pode ter tido pensamento parecido quando afirmou que no final, Deus salvará o Diabo, para que a redenção da Criação seja completa, já que este também faz parte dela. Essa comparação é lembrada por John A. Sanford em “Mal, o lado sombrio da realidade”, paulus, p. 151-152.
Essa redenção ou mesmo despedida do Diabo deve ser considerando-o como ser sobrenatural, e não como manifestação do mal no mundo. Pois o mal existe, devido a isso, é notório entender que quem o produz, na maioria das vezes, são os próprios seres humanos, que no mau uso da sua liberdade, afastam-se de Deus.
Para não jogar a “água da banheira junto com a criança”, é necessário entender que, mesmo acabando com o imaginário demonológico que vive entre os fiéis. Os estudos, e tratados teológicos surgidos em relação a ele, não devem ser descartados e sim deve-se fazer uma nova hermenêutica.
O Diabo que toma posse do corpo de outros, não merece a nossa fé.


[1] in What Wwitches Do, 1971

Comentário de Antropologia Teológica [2]

SUSIN, L. C. A Criação de Deus, p. 11-84.

Trabalho apresentado ao curso de Teologia como requisito parcial de aprovação na disciplina Teologia sistemática (antropologia teológica) .

“No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn1,1), assim começa a narrativa da Criação. Porém, não devemos compreender essa criação apenas num pequeno espaço, o planeta Terra, e sim deslumbrar que a Criação está além, e compreende todo um universo, que a cada dia cresce cada vez mais. Lembrando que estando num ponto minúsculo dessa grande Criação, foi onde Deus depositou seu amor, e se fez homem pela humanidade.
De modo radical, a criação secularizou-se e o progresso da criação passou a pertencer ao homem, através do avanço das ciências e tecnologias em favor da natureza. Enquanto que a concepção teológica ficou paralisada por muito tempo. Mas, a modernidade também tem suas crises ecológicas, apesar de toda a tecnologia a seu serviço.
O homem vê-se como um senhor de tudo e subjuga a natureza a si, retirando aquilo que necessita e que não precisa para sobreviver. O desejo exacerbado de consumo e progresso faz com que a natureza se torne uma fonte de renda que deve ser explorada sempre mais. Ao invés de manter uma relação de integração, onde o ser humano é inserido nesse meio, como um parceiro amistoso.
A realidade vista é outra, onde há uma guerra da humanidade contra o resto da Criação [p.15], onde o fim de um leva ao fim do outro. Uma guerra sem propósito onde se busca acumular infinitamente, esquecendo que se vive num espaço finito [p.14]
Agora, cabe a Teologia iluminar o mundo, ajudar a humanidade a compreender o sentido da natureza na criação, onde os valores cristãos não estão apenas na contemplação e no social, mas num olhar ecológico do meio que se vive. Mostrar uma nova perspectiva dos textos bíblicos, explanando que tudo e todos são obras do mesmo Criador.
Lembrando Francisco de Assis, com o Cântico do Sol [p.18]: “Louvado sejas, meu Senhor,/ Por nossa irmã a mãe Terra/ Que nos sustenta e governa,/ E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas”
. Dando um maior valor a terra, esta que nos sustenta em vida e nos acolhe no momento da morte.
Sob outro olhar, surgem questionamentos e respostas pra explicar a presença do ser no mundo, e o mundo no universo, e este, o motivo pelo qual foi criado. A ciência explica através de prováveis teorias entre as quais o Big Bang onde se refere à idéia de que o universo estava originalmente muito quente num determinado tempo no passado, e devido ao seu estado denso, provocou uma grande explosão que faz com que ele continue em crescimento; a filosofia, tenta explicar o existir do Universo, enquanto a Teologia tem uma luz para a resposta, que coloca um Autor para tudo isso, que geralmente é questionado pela ciência. Mas a Criação do “nada” por Deus, não é uma compreensão de Big Bang, que também foi do “nada”? Deus não pode ter sido o Autor desse grande mistério exposto pela ciência? Apreciando o Universo, vemos que ele não é um acaso, e sim obra da Sabedoria que vem de Deus.
Antes de qualquer compreensão científica, a religião dá resposta através de mitos e linguagens próprias. O mito, não deve ser entendido como algo falso, e sim como um conhecimento revestido de conteúdos simbólicos, diferente e próprio de cada povo. O mito, com essa concepção dá um sentido à vida, ele mostra um caminho a se esperar. Do mito, nasce a fé de um povo.
Além do mito, a Sabedoria surge não como a resposta última dos mistérios existentes, mas como uma luz de pensamento que leva a reflexão do homem para o mundo e principalmente para que ele reconheça quem o criou. Lembrando sempre que, indiferente dos caminhos que tomam, todos tem o mesmo fim.
Diferente do mito e da sabedoria, estando além, mesmo compreendendo as duas, a teologia busca a verdade, seja ela formulada pela ciência ou pela filosofia. Sendo que seu ponto de partida começa pela fé, e sua elaboração ultrapassa as que são apresentadas pelas outras ciências. [p.30] É a Teologia, que de forma humilde reconhece um Criador, e também vê em seu Filho o surgimento da Nova Criação. Fecundados na primeira criação, passamos ao trabalho de gestação com a Nova Criação em Cristo e ficamos a espera de um parto num fim escatológico.
“O Criador abraça a criação e a molda com suas “duas mãos”, o Espírito e o Filho. No Espírito, Deus está sempre presente em toda a criação, de tal forma que tudo está em Deus e Deus está em tudo [Tomando cuidado pra não entendermos como panteísmo]. No Filho, Deus se faz a mais humilde e excelente criatura, rompendo hierarquias e tornando-se a forma acabada da criação, mediante a Páscoa” [a Nova Criação]. [p.44]
Voltando ao papel da Teologia, que é orientar o povo de Deus, é notório salientar que os escritos bíblicos foram escritos em um contexto histórico posterior ao período narrado, muitas vezes, um intervalo de tempo muito longo. E principalmente que esses escritos, mesmo não tendo um relado fiel ao acontecido, trazem em si um simbolismo grande, que deve ser analisado e interpretado com cuidado.
Deus, quando cria, não toma uma parte de sim mesmo para fazer parte da obra criada [p.51], mas cria através da palavra. Como lembra João: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus e a Palavra era Deus. Ela existia, no princípio, junto de Deus. Tudo foi feito por meio dela, e sem ela nada foi feito de tudo o que existe. Nela estava a vida e a vida era a luz dos homens” (Jo1,1-4). Na Palavra está a vida, luz dos homens, mostrando que Deus ama a vida, e que o desejo de sua Criação é perfeito, é um artista, um arquiteto, que não criou nada apenas pelo fato de criar, mas para que cada coisa ficasse em harmonia com as outras, como uma pintura.
Deus é Aquele que mantém e contém a existência de todas as coisas, por isso, como Ser onipotente cuida de tudo, não intervindo de forma “direta” como queremos conceber, mas age através do Espírito, pois Ele [Espírito Santo], esteve agindo desde o princípio, como mostra os relatos de Gênesis 1. Transforma o caos em cosmos, a desordem em beleza.
Ao contrário do caos, o cosmos precisa ter ordem para ser belo, daí Deus cria por etapas: primeiro a luz, alegria da vida, lembrando os ícones bizantinos, quando são escritos, começam pelo branco, fazendo memória da criação; depois as águas, que dão um contorno á obra criada; e os animais conforme suas espécies e ambientes, um de cada vez, já que Ele dá valor a cada um dos seres criados. [p.70]
No sábado, o sétimo dia, onde Deus finaliza sua obra, Ele descansa e habita em sua obra. Sendo que esse sábado não foi um fim, já que através do Espírito continua criando. O sábado é contínuo, e deve ser memorado, como o domingo, que fazemos memória da Paixão, Morte e Ressurreição de Seu Filho.

Comentário de Antropologia Teológica


BOFF, L. Ecologia, grito da terra, grito dos pobres, p.217-242
SUSIN, L. C. A Criação de Deus, p. 87-117.
Trabalho apresentado ao curso de Teologia como requisito parcial de aprovação na disciplina Teologia sistemática (antropologia teológica) .

Antes de fazer uma reflexão sobre o ser humano, é necessário citar antes o seu criador, Deus. Primeiramente, Deus cria o universo, e após milhões de anos, cria o sistema solar, o qual vai criar sua habitação. Ele faz morada na sua obra e permanece em silêncio até que o homem, sujeito de sua obra, toma consciência e o reconhece na história.
Sobre a criação do universo, é aceita a teoria do big bang, o qual coloca a criação do nada, mas antes do nada, existe nada. Como criar algo a partir disso? Somente Deus é capaz de fazer isso. E mesmo que o homem procure entender isso, não será capaz de fazê-lo. Deus permitiu conhecê-lo através de Jesus, mas não deu a capacidade ao homem de alcançar essa resposta. “O que era antes do nada? Da criação do céu e da terra?” Agostinho responde nas suas Confissões que Ele estava preparando o inferno para aqueles que iriam procurar responder essas questões. Não sendo tão radical, pois Deus criou o homem com amor, e o deu inteligência para pensar, logo faz parte da sua natureza questionar, desde que o faça com humildade, reconhecendo e admitindo no final o Autor da grande obra.
Deus está ligado ao universo de forma umbilical, tal que, o que acontece com um, afeta o outro. Para compreender melhor isso, faz-se necessário repetir as palavras de Leonardo Boff, “o universo não se identifica com Deus (um não é o outro) mas se identifica em Deus (ganha nele seu verdadeiro ser e sentido)”. Ao contrário do panteísmo, onde tudo é Deus, devemos compreender o panenteísmo, onde Deus não é tudo, mas está presente em tudo, e tudo Nele, e por fim reconhecer isso no próximo e poder saudar: “namastê”, o Deus que habita em mim, saúda o Deus que habita em você.
No sexto dia, no relato da Criação, Deus cria o homem, porém no após ser criado, Deus o coloca pra dominar sobre as coisas criadas, daí o homem passou a ser o topo da Criação. Compreendeu isso devido a uma má interpretação das Escrituras. Como o processo criacional não durou apenas seis dias como apresenta o poema de Gn1, e sim vem de bilhões de anos, o ser humano também foi evoluído. E como entender esse estar no mundo e ser humano no mundo? Qual o motivo de ser semelhança de Deus? Com esses questionamentos espera-se não cair no inferno criado por Agostinho, mas ampliar e amadurecer a fé Naquele em Quem se crê.
Não contente em ser criatura amada por Deus, o homem levanta seu olhar para o céu e tenta ver além. “Será que existem anjos?” esses que na Bíblia são manifestação de Deus, que posteriormente foram transformados em seres que representam o mistério da eternidade. Não contentes em criar o ser, criam hierarquias á quais estão submetidos, funções específicas que exercem, podem ser seguranças particulares, os anjos da guarda, ou soldados prontos pra guerra do Armagedon, os arcanjos que lutarão contras os demônios num fim.
Antes de questionarmos quantos anjos cabem na ponta de uma agulha, vale lembrar que o homem, que reconhece Deus que habita no próximo, deve ser o anjo protetor, que é anjo da guarda das crianças, fracos, excluídos assim como Madre Teresa de Calcutá e soldados prontos pra lutar contra o fim da criação, como Chico Mendes.
Os anjos como seres celestiais, não fazem parte da profissão de fé do cristão, e a crença neles ou não, não modifica a fé, desde que ela seja em Cristo. Porém, vale provocar com outro questionamento: “Será que Deus, nesse infinito universo, preocupado em criar as criaturas humanas, não se lembrou das celestiais?” Essa pergunta, assim como outras, só será respondida quando estivermos face a face com Deus na eternidade.
Voltando o olhar para a terra, o ser humano, revendo as Escrituras e a interpretando melhor, deve perceber que antes dos versículos onde o coloca como o que domina sobre os outros seres, no Gênesis, tudo já havia sido criado. Ele chegou depois, é um convidado pra levar consigo todos para o Sábado, onde Deus poderá descansar de sua obra.

Comentário do texto: "Diretrizes para uma doutrina ecológica da criação"

MOLTMANN,J. Diretrizes para uma doutrina ecológica da criação, in: Deus da Criação

Trabalho apresentado ao curso de Teologia como requisito parcial de aprovação na disciplina Teologia sistemática (antropologia teológica) - 03/03/2011.

Em Gn1,26 Deus diz para que seja feito o homem e que este domine sobre todos os animais, na terra, na água e no ar. O homem, criatura de Deus, entende-se como o senhor de tudo isso, esquece do Deus absoluto, e se coloca no centro de toda Criação. A compreensão de domínio sobre tudo fugiu do controle do homem, e este passou a destruir, a abusar dos recursos existentes no planeta, esquecendo do cuidado necessário para uma preservação, alegando desenvolvimento e modernização.
Deus, não pode ser entendido como um Senhor longe da humanidade, mas próximo. Um Deus trino, que tem a comunhão entre Pai, Filho e Espírito Santo. Que através do Filho se fez mais próximo à humanidade.
1. O Reconhecimento da natureza como criação de Deus é reconhecimento participativo
Cada vez mais, o homem se torna senhor do mundo, estudando e entendendo cada vez mais todas as coisas contidas nele e também em si mesmo, através das ciências modernas. Porém, o é entendido em partes através das ciências modernas.
“Entendemo-los, portanto, melhor integrado, não dividido, mas dentro de sua totalidade.” (linha 28)
Daí concebe-se que o homem não deve ser analisado como um objeto, mas como sujeito, onde há um conjunto de todas as partes que o forma, uma cultura que o rodeia. Já que é um ser que depende da relação com os outros. (linha 35)
O pensamento comum do ser humano, com o meio ambiente, deve mudar e deixar de ser um usuário de um “bem sem dono” (linha 63) para co-habitar com a natureza, respeitando-a e a preservando.
2. Criação para a glória
Uma doutrina cristã para a criação “está orientada para a libertação das pessoas, para a satisfação da natureza e para a salvação da comunhão entre pessoa e natureza das forças do negativo e da morte”. (linha 8)
Deus cria o mundo, e faz dele sua morada (linha 30), por isso, a “casa” de Deus deve ser preservada pelos “inquilinos” que é a humanidade, que a toma por um instante e nela habita. Para que um dia na Glória, habitem a morada eterna junto ao Pai.
3. O sábado da criação
“Deus concluiu no sétimo dia a obra que fizera e no sétimo dia descansou, depois de toda a obra que fizera. Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, pois nele descansou de toda a sua obra de criação”. (Gn2,1-3)
O sábado é por excelência, o dia de celebrar a criação, pois é nesse dia que Ele contempla e abençoa sua obra. Os cristãos entendem a criação a luz da ressurreição, pois esta é sua nova criação (linha 50). È na ressurreição que nasce a esperança da criação de um mundo sem fim. (linha 58)
4. Preparação messiânica da criação para o Reino
“A graça de Deus deve ser vista na ressurreição de Cristo, que a sua ressurreição é o início da nova-criação do mundo”. (linha 39)
5. Criação no Espírito
A princípio, dizia-se que apenas Deus Pai que criava, mas, como pensamento cristão, a criação é ato trinitário, o Pai cria através do Filho no Espírito Santo (linha 2). E o mundo após criado permanece em constante transformação através do Espírito, que mantém todas as coisas.
Lembrando a raiz hebraica de Espírito (ruah) (linha 44), que é uma palavra feminina, remete a vida, já que é o feminino que gera. O Espírito é a fonte da vida que emana sobre tudo o que foi criado (linha 79). E Ele e o ponto de comunhão entre todas as criaturas e Deus. (linha 85)
6. A imanência de Deus no mundo
Deus, ora colocado na transcendência, não deve ser entendido como as divindades pagãs, que divinizam as forças da natureza, como as religiões naturais matriarcais, sendo o mundo imanente, por ter sido criado por Ele.
O Deus imanente e o Deus transcendente é o mesmo Deus (linha 82), já que Ele cria e habita sua criação. Como afirma a doutrina rabínica, Deus caminha com seu povo, peregrina na miséria, sofre com ele, permanecendo ligado na alegria e na dor (linha 103). Na doutrina cristã trinitária, Deus, através de seu Filho, cria, reconcilia e salva a sua criação. (linha 108)
7. O princípio da compenetração recíproca
Em Deus, não há divisão hierárquica, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só, sem estarem subordinados a outro, como numa relação vassalo e suserano. “No Deus trino existe o mutualismo e a reciprocidade do amor”. (linha 26)
Assim, Deus através da reciprocidade do amor, se relaciona com o mundo; o céu e a terra com o seu Reino; a alma e o corpo unidos no Espírito. (linha 31)
8. Espírito e consciência humana
Através do Espírito, estamos unidos através de uma relação de simbiose. Lembrando Paulo na carta aos romanos, assim como a Igreja é como um corpo, e cada pessoa faz parte do grande corpo, exercendo cada um o seu dom (Rm12,4ss). O homem é uma parte do grande corpo que é a Criação, que deve viver com os outros seres em comunhão.